Manuel Antonio's profileESPAÇO DE MANUEL ANTÒNIOPhotosBlogListsMore Tools Help

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    March 19

    DIA DO PAI

          Alfredo abriu a porta do restaurante e, enquanto a segurava aberta  com a mão esquerda, com a direita amparava e ajudava seu velho pai a entrar naquele espaço. O Sr Venancio, proprietário daquele estabelecimento havia perto de quarenta anos, veio sorridente cumprimentar aqele que talvez fosse o seu mais antigo cliente e amigo que ainda o visitava regularmente e, depois de o abraçar, cumprimentou efusivamente Alfredo. De seguida conduziu-os á habitual mesa um que se situava no canto entre o balcão e a sala dois e que tanto agradava a ambos.
          Após acomodar seu pai Alfredo pediu-lhe licença para ir á sala ao lado cumprimentar uns amigos e á casa de banho.
        - Vai lá á tua vida... Mas olha que vou pedir... Estou cá com uma fome!!!
          Após ter pedido o habitual bife de cebolada e a costumeira garrafinha de tinto de Borba o Sr Domingos ficou a pensar naquele filho de quem tanto gostava e de quem tanto carinho recebia... Mas nem sempre fora asssim... Tempos houvera em que sentia vergonha dele e que preferira que aquele nunca tivesse nascido. Lembrava-se bem que durante muitos anos evitara frequentar os cafés e as tascas da vila para não ter que sentir o olhar daqueles que, sabia-o bem, escarneciam de Alfredo pela sua assumida homossexualidade. A única excepção era aquele restaurante do seu amigo Venancio e aquele cantinho da mesa um. E pela sua mente passavam agora as inumeras discussões familiares por causa daquele filho que tanto o desgostara e a quem tantas vezes insultara com tanta violência verbal que a palavra "mariconço" lhe parecia um elogio.
    Os anos foram passando e aquele filho, ao contrário dos outros, nunca esquecera o pai e, mesmo sabendo que ia ser mal recebido, sempre o visitava e procurava inteirar-se da sua saúde. Apesar de trabalhar e viver a quase cem quilometros de distância muitas eram as suas visitas e as suas preocupações. O Sr Domingos foi-se acostumando á ideia de que, apesar de ser uma pessoa com uma orientação sexual diferente, Alfredo era uma boa pessoa e, como se habituou a pensar sem nunca se atrever a dize-lo,  o melhor filho do mundo.  Ficava agora triste de pensar no sofrimento que tantas vezes causara á  sua Ermelinda por defender tanto os filhos mas, muito especialmente, aquele.
    De cada vez que o assunto era o Alfredo a discussão era certa e, alem da violência verbal, duas ou três vezes lhe batera. Como lamentava agora! Consolava-o saber que a mulher lhe perdoara e entendera como este filho fizera... Afinal eram tão parecidos!...
         Foi interrompido nos seus pensamentos pela Dorinda que, toda sorridente, lhe dava as boas tardes e lhe servia a refeição. Estava com tanta fome que lhe pediu que lhe pusesse a comida no prato para que pudesse começar mais rápido.
         - Deixe estar que eu sirvo Dorinda muito obrigado... Disse Alfredo que entretanto chegara.  Bife de cebolada não é Sr meu pai? Olhe que isso tem muita gordura e faz-lhe mal! Mas está bem... Hoje é um dia especial e até eu vou comer... E fazendo sinal á empregada para que se aproximasse fez o pedido.
         - E para beber Sr Alfredo? Tambem bebe vinho?
         Este que detestava alcool respondeu:
         - Deus me livre menina! Prefiro mil vezes ser violado por cinco mulheres virgens a que uma gota de alcool toque em meus lábios!
         Atrapalhado com a primeira garfada que levava á boca e com a placa dentária superior que ameaçava caír o Sr Domingos deitou rápidamente a mão á garrafa e, estendendo a mão na direção da empregada, disse:
         - Desculpe menina mas hoje tambem não quero vinho. Quero antes isso que o meu filho pediu.
         - Isso o quê Sr Domingos?
         - Isso lá das cinco mulheres virgens. Respondeu enquanto segurava a placa com a mão direita.
         Perante o esforço de Alfredo para não rir e o olhar atónito da empregada disse meio envergonhado:
         - Desculpe menina mas não sabia que podia escolher!!!
     
     
    March 12

    AI ALFREDO ALFREDO!

           A  Farmácia  das Pintas, recentemente inaugurada,  tem estado, por vários motivos, no centro das atenções das gentes da simpática vila de Arrombados de Baixo.
    A inauguração foi feita  ao som dos acordes do conhecido agrupamento musical " As Gatas Borralheiras" composto pelas quatro filhas da Tina do Caneco e de pais incógnitos. O conhecido Zé da Ovelha, que até há bem pouco tempo vendia petróleo ao litro e carvão ao quilo é o proprietário e,  depois de ter tirado um curso por correspondencia, o seu director técnico e o Neca do Anastácio que, até há bem pouco tempo era o coveiro da freguesia, é, no intervalo das suas inumeras bebedeiras,  o funcionário de serviço.
    Nas semanas que antecederam a abertura uma forte e agresssiva campanha publicitária fez eco diáriamente na rádio e jornal da terra supervisionada pelo Júlio Galinha, filho do Presidente da Camara.
    A juntar a tudo isto causou furor a sala de demonstração prática do uso de  anticoncepcionais a cargo de dois robots possuidores de genitais artificiais e que foram  baptizados com os nomes de Carolina e Alfredo.
    No terceiro dia de trabalho o Neca atrasou-se na abertura da farmácia por causa da carraspana da noite anterior no tasco do Jacinto Zarolho e, quando ali chegou, já encontrou um monte de gente á sua espera: a Quina do Mexia que queria comprar uma injeção de penicilina para o porco do marido e a mulher do sacristão que queria veneno para as beatas. Por isso mesmo não teve tempo de abrir a secção dos anticoncepcionais e, quando lá chegou e ligou os dois robots, achou estranho o comportamento do Alfredo. Andava de um lado para o outro, aproximava-se da janela e espreitava para fora, olhava insistentemente para a porta e deitava as mãos á cabeça ao minimo ruído. Preocupado ligou ao Zé e este, temendo algum dano no seu investimento, rápidamente chegou ao local. Após  uma primeira e superficial análise  resolveu chamar o técnico uma vez que o Alfredo ainda estava dentro da garantia.
    Após uma minuciosa análise o técnico deu o seu veredicto: O Alfredo estava de facto com um problema que precisava tratamento urgente composto por apoio medicamental e psicológico e, mais importante do que isso, não estava previsto nas condições de garantia e, por isso mesmo, teria que ser suportado pelo proprietário. Ao ouvir isto o bom do Zé da Ovelha quase subia a parede nao fora ela tão lisa e não estivesse ele com os copos e exigiu uma explicação: Se o Alfredo  só tinha três dias de trabalho e se havia  avariado como era possivel não estar coberto pela garantia? E, puxando dos seus galões de empresário, exigiu uma explicação e o técnico, com uma inuscitada calma explicou:
        -Tá a ver este buraquinho aqui ao fundo das costas do Alfredo?
    O Zé colocou os óculos na ponta do nariz para melhor observar e respondeu:
        - Sim tou a ver o buraco... e depois?
        - Depois.... Bem é um assunto melindroso...
        - Diga lá o que se passa amigo! Olhe que eu tenho mais o que fazer!...
        - Bem... já que insiste... O Alfredo está psicológicamente afectado e precisa ser devidamente tratado e acompanhado porque...porque...
        - Diga de uma vez homem...
        - Tá bem... eu digo: Nesse buraquinho que ali vê encontrei eu residuos de esperma. Alguem abusou do Alfredo e, por isso mesmo,  ele está deprimido, ansioso e temo que possa tornar-se violento. Mas não posso fazer mais nada dado que esse acontecimento não  está previsto na  garantia.
    March 07

    ALERGIAS

    Depois de uma longa e penosa espera foram hoje conhecidas e divulgadas á imprensa as conclusões a que chegou o ilustre médico alergologista japonês Dr Sabenoku  no caso dos funcionários do Tribunal de Arranha a Velha.
        Como é do dominio público há já muitos anos que os funcionários daquele tribunal faltavam sistemáticamente ao emprego em virtude de doenças alérgicas incompreensiveis para os clinicos Portugueses. Foram efectuadas várias analises aos funcionários e foram testados os diversos equipamentos e materiais de construção do antigo tribunal. Verificaram-se o ar condicionado, os computadores,as secretárias ( de quatro pernas) as máquinas de escrever, os cestos dos papeis, as cadeiras e todo o material de trabalho colocados á disposição dos funcionários. Todos estes equipamentos se encontravam em perfeito estado de conservação e funcionamento e, apesar de já terem uns anitos, estavam, devido ao seu muito pouco uso, como novos. Como nada de anormal foi encontrado partiram os especialistas para as análises aos materiais de construção utilizados no edificio e, depois de anos de trabalho, chegaram  á conclusão de que não havia ali nada que pudesse justificar tantas e tão prolongadas faltas ao trabalho. Alguns dos funcionários estavam meses de baixa e em tratamento médico e quando, finalmente, recuperavam a alegria e vivacidade e lhes era dada ordem de voltarem ao trabalho bastavam duas horas dentro do edificio do tribunal para que fosse necessário chamar a ambulância, o I.N.E.M. e ás vezes, por precaução, o carro funebre.
        Uma vez que não foram detectadas as causas do problema resolveu o Ministério da Justiça mandar erigir um novo tribunal nos terrenos do antigo campo de futebol pois a S.A.D. do F.C. Arranhense tinha decretado falência e o Presidente do clube, e simultaneamente da Camara Municipal, tinha fujido para o Brasil onde tinha uma namorada travesti. Para que fosse resolvido de vez o problema o Ministério nomeou 122 fiscais para fiscalizarem os 9 trabalhadores que executaram a obra. Como o trabalho dos fiscais era muito duro  e para evitar que algum deles apanhasse alguma depressão ou algo mais grave eles revezavam-se e enquanto um fiscalizava os outros iam-se entretendo a dormir á sombra dos chaparros, a jogar á malha ou a "bate-las" no tasco do Quim da Buceta.
        Ao fim de 32 anos o tribunal estava feito e, para que fosse batido o record da rapidez, foi inaugurado mesmo antes de ser colocado o telhado porque aquele era ano de eleicões. Mas não houve problema porque o telhado só demorou treze anos.
        Mas logo na primeira semana de trabalho no novo edificio voltaram os problemas e as alergias e o tribunal quase encerrou por falta de funcionários. O que valeu foram os novatos que, como estavam a recibo verde, não tinham direito a "baixa" e foram fazendo andar alguns processo principalmente aqueles dos amigos que, á noite, lhe batiam á porta com os pés não por falta de educação mas por trazerem as mãos ocupadas.
        Então decidiu o Ministério contratar o mais famoso alergologista do mundo: o ilustre sábio japonês Dr Sabenoku. Este, depois de analisar todos os dados recolhidos pelo investigadores portugueses, começou imediatamente a desconfiar de uma alergia de  que ele, lá no seu país, nunca tinha conhecido mas que havia estudado quando, no inicio da sua carreira, fizera um curso por correspondência. E assim sendo convocou imediatamente todos os funcionários para efectuar análises na sexta feira seguinte. Só que essa sexta feira era dia de greve e o homem  não sendo português não tinha obrigação de saber que, neste ´país, as greves se convocam sempre para as segundas ou sextas feiras para que, desta forma, os trabalhadores possam ter justificação para um fim de semana prolongado e irem á boate com os filhos ou á pesca com o (a)s amantes.
    Assim sendo foi efectuada nova convocação para terça de manhã e, dos 532 funcionários que estavam de baixa,  apareceram sete que tinham tido o azar de serem convocados para, na segunda feira, irem á junta médica  que, de imediato, os mandou trabalhar.
    E foi sobre estes sete desprotegidos da sorte que recaíu a bateria de exames efectuada pelo ilustre clinico que, ao fim de cinco minutos, chegou á conclusão que, com clinicos portugueses, durante tantos anos fora procurada: A causa da alergia daqueles funcionários. E, segundo a opinião avalizada do Dr Sabenoku, era de facto uma alergia que impedia aqueles funcionários de exercerem a sua profissão e de cumprirem com a sua missão: Aqueles funcionários eram alérgicos ao trabalho e, por isso mesmo, foi-lhes recomendado muito descanço e, de preferência, com ajudas de custo para que, desta forma, possam, um dia mais tarde, gozar a sua bela reforma no valor do seu ordenado mais todas as regalias conquistadas com tantos anos de alergias!!
    Aos alérgicos um abraço do M. António.
    February 07

    SONHO

    ESTA NOITE TIVE UM SONHO
    TODO CHEIO  DE MISTÉRIO
    NAMORAVA MOÇA BONITA
    Á PORTA DE CEMITÉRIO
     
    BEIJANDO DE MANSINHO
    FUI AVANÇANDO DEVAGAR
    A MOÇA GEMIA BAIXINHO
    E COMECEI A APALPAR
     
    ELA TODA  SE CONTORCIA
    E COMEÇAVA A OFEGAR
    E A MINHA MÃO DESCIA
    PARA MELHOR ACARICIAR
     
    UM PALMO ABAIXO DO UMBIGO
    NO MEIO DE IMENSO MATAGAL
    TENTEI PLANTAR UM PINHEIRO
    RAÇA BOA E SEM IGUAL
     
    METI NO PINHEIRO A CAMISA
    ESTAVA UM FRIO DE RACHAR
    TENTEI METE-LO NO BURACO
    ELE COMEÇOU A MURCHAR
     
    E A MOÇA  TODA SE TORCIA
    QUERIA O PINHEIRO ENTERRADO
    E TANTAS FESTAS LHE FAZIA
    QUE ELE FICOU ARREBITADO
     
    LEVANTOU-SE UM MORTO E DISSE:
    TENHAM LÁ MAIS ATENÇÃO
    QUE A GENTE NÃO É DE FERRO
    COMO AS BARRAS DESSE PORTÃO
     
    COMECEI LOGO A CORRER
    COM O PINHEIRO A ABANAR
    AS CALÇAS SEMPRE A DESCER
    E ELA ATRÁS A AGARRAR
     
    TOMADOS DE SOBRESSALTO
    PENSAMOS TER SIDO ENGANO
    A MOÇA DE SAPATO ALTO
    EU DE SAPATILHAS DE PANO
     
    A VER QUEM CHEGAVA PRIMEIRO
    CORREMOS A BOM CORRER
    MAS TINHA SIDO O COVEIRO
    QUE NÃO TINHA QUE FAZER
     
     
     
     
     
     
     
    January 24

    ANIMAIS NA FAMILIA

    a cabra da minha tia
    apanhou a cancela torta
    e, naquela manhã fria,
    entrou e comeu a horta
     
    veio o meu tio a correr
    a gritar fez um pagode
    nao pensava tanto sofrer
    com a cornada do bode
     
    trepou laranjeira acima
    para fujir ás marradas
    sentiu humidade no cú
    tinha as cuecas borradas
     
    quando o barulho ouviu
    e o viu lá em cima
    veio a correr desalmada
    a vaca da minha prima
     
    tanta pressa ela tinha
    naquela ansia de chegar
    pensando que era a minha
    foi na do bode agarrar
     
    gemia de dor o coitado
    e com tanta agitação
    saíu o leite já fermentado
    do bode de cobrição
     
    chegou o boi do meu primo
    e ao ver tal banzé
    ficou tão entusiasmado
    que cobriu a vaca de pé
     
    de cima da laranjeira
    a tudo meu tio assistia
    e andando de caganeira
    todo borrado se via
     
    eis que chega o regedor
    homem muito respeitado
    espantou o marrador
    ajudou a descer o borrado
     
    acabou tudo de bem
    a cabra a vaca e o bode
    deixando o boi sozinho
    foram todos p`ro pagode
     
     
     
    January 11

    DR SOFRIMENTO

    Saco no  colo, mãos sobrepostas em cima deste, pernas  ligeiramente estendidas naquela cadeira forrada com tecido de um verde esperança que fora uma das poucas coisas em que reparara na primeira vez, há mais de dois anos, que ali entrara, Emilia esperava confiante o diagnóstico do Dr Boaventura que, cuidadosamente, analisava os vários exames e relatórios. Durante muitos minutos mantiveram-se ambos nestas posições sem trocarem uma única palavra. Emilia mostrava-se calma e confiante contrastando com a primeira vez que ali entrara.
    Após muitos minutos de análise cuidadosa o clinico levantou-se da cadeira e foi colocar-se semisentado no bico da sua secretária  colocando o pé esquerdo no chão enquanto balançava o direito como que a  pontapear uma qualquer bola invisivel que por ali andasse e, sorrindo, disse:
        - Parabens Emilia!
    Esta levantou o olhar e viu no sorriso e palavras do clinico a resposta que esperava desde que ali entrara: estava definitivamente curada!
        _ Sei que muitos foram os sacrificios para aqui chegares... Sei que as muitas lágrimas vertidas dariam para encher o tanque onde, todos os dias, lavas a roupa dos teus meninos, sei que muitos foram os momentos em que, não tivesses dois meninos lindos, terias desistido... Mas, minha menina, valeu a pena e, acredita, estou tão feliz como tu... Sinto que hoje começa para ti uma nova vida; Depois de tudo aquilo que passaste, quer nesta doença quer noutras situações criticas da tua vida, onde muito sofreste estás uma pessoa muito mais madura, humana e amiga. Cresceste imenso com tanto sofrimento e tanta dor. E olha que não falo só do cancro que te causou imensas dores fisicas mas sim de outras dores que antes havias sentido, vivido e ultrapassado. Dores essas muito piores do que aquelas dores horriveis que sentiste durante o tratamento deste cancro que, finalmente, venceste.
    Emilia franziu a testa e, sem articular uma palavra, dirigiu um olhar interrogador ao clinico. Este, percebendo,  continuou:
       - Pensas que há muito não percebi o quanto era dificil para ti falar sobre o teu ex marido e sobre esse periodo da tua vida? Que há muito percebi que no teu passado havia muito mais do que aquilo que querias dizer? Que havia marcas fisicas no teu corpo e mentais nessa tua cabeça que, muito dificilmente, te deixarão voltar a ter uma vida normal?
    Emilia levantara-se da cadeira com intenção de responder rudemente ao médico mas este, fazendo-se valer dessa sua condição e ainda da sua adiantada idade continuou:
        - Tu, minha menina, viveste situações que teriam levado ao suicidio qualquer outra. Percebi desde as primeiras consultas, que tu não eras uma mulher normal e, devagarinho, fui começando a construír o teu perfil na minha cabeça e, a partir daí, fui equacionando possiveis causas para alguns dos teus comportamentos e fui chegando a conclusões: Um possivel abuso, por parte de um adulto sem escrupulos, da tua condição de adolescente  desamparada e sem pais... Um casamento com alguem de quem não gostavas única e simplesmente para fujir dessa situação que tanto te afligia. Os maus tratos a que foste sujeita mas que sempre escondeste por amor aos teus meninos. Depois....
    Nesse momento Emilia, que lentamente se aproximara do médico, limpando as lágrimas que teimavam em rolar rosto abaixo deixou-se caír nos braços deste e chorou convulsivamente.
    Durante longos minutos, quase tantos como os que o médico gastara a analisar os exames e relatórios, chorou enquanto o velho clinico a acariciava a medo.
    Quando finalmente se recompôs balbuciou algumas perguntas:
        - Quem é o senhor?
        - Como sabe tudo isso?
        - Tudo aquilo que sei, minha menina, foi-me ensinado por um velho amigo..
        - Ele conhecia-me? Perguntou Emilia.
        - Muito bem minha querida... mas nunca me falou de ti.
        - Como assim? Perguntou Emilia. E olhando para a porta de uma outra sala e vendo a placa com um nome perguntou?
        - Foi aquele o seu amigo que tudo lhe ensinou?... O Dr  Sofrimento?
    Olhando a placa que há muitos anos ali havia colocado o Dr Boaventura disse:
        - Sim é verdade. O Sofrimento é um velho amigo que me ensinou muita coisa que não aprendi em nenhuma escola nem na universidade. Foi meu companheiro e,  durante muitos anos, fomos quase inseparáveis.Há já muito tempo que não fala comigo... No entanto vejo-o todos os dias com os meus pacientes.
        - Não fala consigo? Zangaram-se? Perguntou Emilia meio confusa.
       - Sabes minha filha... Convivi muitos anos diáriamente com ele mas detestava-o. Ensinou-me muita coisa mas odiava-o. Fez-me forte mas preferia ser frágil. Fez me mais humano mas preferia ser animal. E para terminar gostaria de poder mata-lo sempre que o vejo com um dos meus pacientes.
    January 03

    CONDECORAÇÕES

    Apesar de ainda faltarem mais de seis meses para o dia de Camões e das comunidades, dia em que por tradição são atribuídas condecorações por altos  serviços prestados á Nação, estão já encontrados três  nomes que, irremediavelmente, o Exmo Sr Presidente da Republica Portuguesa terá que considerar: Os três administradores da
    GEBALIS.
    De facto só por má fé ou desconhecimento do esforço destes três administradores se poderá aceitar a sua não nomeação.
    Não é fácil delapidar, em apenas alguns meses, tantos milhões de euros desta empresa minicipal! Imagino as noites que passaram sem dormir por terem comido e bebido demasiado, as terriveis viagens a destinos paradisiacos a que eles, a familia e até amigos estiveram sujeitos, o sacrificio que foi necessário fazer para, apesar da imensa vontade de usar o cartão particular, terem que usar o cartão da empresa para pagarem as despesas efectuadas. ( já imaginaram os milhões de pontos que perderam para o cartão da empresa?)
    Tantas horas perdidas em restaurantes de luxo, a dificuldade na escolha da prenda mais cara para aquele(a) amigo(a) especial... as semanas de férias intermináveis.
    Tudo isto em apenas um ano e meio!!
    Por tudo isto apenas algumas perguntas:
    Porquê só um ano e meio?
    Porque os não deixaram continuar, como a tantos outros, o seu meritório trabalho?
    Admistradores desta qualidade, apesar de haverem muitos, nem todos estão disponiveis e sensibilizados para a causa pública.
    Porque, meus amigos, é muito mais fácil vender uma praia no Algarve, uma parte do Oceano Atlântico, um frigorifico a um esquimó, uma viagem ao inferno ou um banco no ceu ao lado de S. Pedro do que administrar uma empresa pública!
    O que estes Senhores(a) fizeram é algo de notável só ao alcance dos predestinados!
    Daí este meu apelo a Sª Exª:
    Bem sei que será quase tão dificil como aquele indulto com que em 2006  agraciou aquele foragido á justiça sobre o qual pendiam vários mandatos Nacionais e Internacionais.
    Bem sei que muitos outros gestores de elevada e reconhecida craveira como os   daqueles bancos  que recentemente  foram descobertos merecerão identica distinção.
    Bem sei o quão será dificil a escolha  para Vª Exª num país com tantos outros desta estirpe.
    Bem sei que entre a classe politica haverá muito mais gente a merecer esta honra.
    Mas  quero acreditar no sentido de justiça de Vª Exª e na justa condecoração a estes notáveis administradores.
    A BEM DA NAÇÂO...

    GREVE NO CIRCO

    ESTA MANHÂ, APÓS UMA DEMORADA  REUNIÃO, OS ANIMAIS DO CIRCO ATCHIM RESOLVERAM FAZER GREVE  DELEGANDO NO FAMOSO SINDICALISTA  PAPAGAIO LOIRO A COMUNICAÇÃO E POSTERIOR NEGOCIAÇÃO COM A ENTIDADE PATRONAL.
    NA DITA REUNIÃO FORAM ANALISADOS COMPORTAMENTOS E ATITUDES QUE, NA OPINIÃO DOS ANIMAIS, ATENTAM CONTRA A SUA DIGNIDADE DE TRABALHADORES DO ESPECTÁCULO ALGUMAS DAS QUAIS FIZERAM PARTE DO MANIFESTO REDIGIDO´PELA ZEBRA RISCADA A SABER:
     
    1) A COBRA MANHOSA FOI OBRIGADA A CUMPRIR O SEU HORÁRIO DE TRABALHO APESAR DE SE QUEIXAR DE DORES HORRIVEIS NUMA PERNA. EXAMES POSTERIRES CONFIRMARAM A EXISTÊNCIA DE UMA LESÃO NO MUSCULO ROTULIANO DA SUA PERNA DIREITA.
     
    2) A GALINHA FLAUSINA QUEIXOU-SE QUE NÃO FOI RESPEITADA A SUA LICENÇA DE PARTO NA QUAL FOI OBRIGADA A TRABALHAR O HORÁRIO NORMAL. NESTA ALTURA NÃO É RESPEITADO O SEU DIREITO A HORÁRIO REDUZIDO PARA AMAMENTAÇÃO DOS  SEUS DOZE PINTOS.
     
    3) O BURRO CARECA DENUNCIA A APROPRIAÇÃO INDEVIDA, POR PARTE DA ENTIDADE PATRONAL, DO SUBSIDIO A QUE TINHA DIREITO VINDO DA C.E.E. PARA PROTEÇÃO DA RAÇA BURRICAL. (E HÁ POR AÍ TANTO BURRO QUE NÃO SABE DISSO!)
     
    4) O MACACO PRETO DIZ TER SIDO OBRIGADO A FICAR OITO HORAS SENTADO APESAR TER AVISADO O TRATADOR QUE TINHA CALOS NO CÚ.
     
    UMA DAS VOZES DISCORDANTES Á DECLARAÇÃO DE GREVE FOI A DO LEÃO QUE, PARA ELUCIDAÇÃO DOS RESTANTES, FEZ UMA BRILHANTE ALOCUÇÃO ENALTECENDO A SUA LINHAGEM REAL QUE  IMPEDIA A SUA PARTICIPAÇÃO EM MANIFESTAÇÕES DE RUA.
     
    O CAMALEÃO APOIOU INCONDICIONALMENTE A GREVE E, PEDINDO LICENÇA PARA SE RETIRAR, FOI AVISAR O PATRÃO E GARANTIR-LHE O SEU INCONDICIONAL APOIO.
     
    O JACINTO CHIMPANZÉ BOTOU FALADURA PARA SE OPÔR COM DETERMINAÇÃO AO QUE DIZ SER "UMA GREVE SELVAGEM E SEM FUNDAMENTO" AO MESMO TEMPO QUE INSULTAVA OS MENTORES DESTE PROTESTO. OS DEMAIS NÃO GOSTARAM DA ATITUDE NEM DA LINGUAGEM E, NUM INSTANTE, RODEARAM-NO  E FIZERAM-LHE UMA BARBARIDADE JAMAIS FEITA EM TEMPO ALGUM: PEGARAM EM PALHILHAS E FIZERAM-LHE COCEGAS NO CÚ.
    ESTA VIOLÊNCIA MOTIVOU UMA QUEIXA NA POLICIA ANIMAL POR PARTE DO JACINTO CHIMPANZÉ.
     O BURRO DE SERVIÇO, ALEM DE TOMAR CONTA DA OCORRÊNCIA, ORDENOU JÁ A ABERTURA DE UM RIGOROSO INQUÉRITO PARA APURAR RESPONSABILIDADES NOMEANDO O SEU COMPADRE MORCEGO PARA AUDIÇÃO DE TESTEMUNHAS JÁ ESTA TARDE.
     
    ENTRETANTO A SOCIEDADE PROTETORA DOS HOMENS VEIO A TERREIRO APOIAR OS PROPRIETÁRIO DO CIRCO ATCHIM E NUM COMUNICADO DISTRIBUÍDO Á IMPRENSA DENUNCIA MANOBRAS POLITICAS E ELEITORALISTAS POR DETRÁS DESTA AÇAO DOS SINDICALISTAS. ADVERTIU AINDA OS ANIMAIS E RESPONSABILIZOU-OS  PELOS PREJUÍZOS E PELA EVENTUAL FALÊNCIA DO CIRCO.
    December 21

    PAI E MÂE NATAL

    Pela brigada foi apanhado
    o pai natal deste ano
    e como estava embriagado
    afirmou tratar-se de um engano
     
    A Mãe natal muito devagarinho
    mostrou a pipa que transportava
    quinhentos litros de vinho
    do qual mais de metade faltava
     
    Foi lá em cima em trás os montes
    acima de Vila Real e  perto de Alijó
    quando numa das muitas pontes
    o Pai Natal  a pôs fora do trenó
     
    Com um lindo corpo de sereia
    a Mãe Natal... coitada
    despiu-se e pôs-se á boleia
    ali mesmo... na beira da estrada!
     
     
    November 01

    A VOZ

         Era dia de Todos os Santos e, como era habitual na aldeia, o dia começou muito cedo com a corrida aos jardins para colher as flores que, manhã cedo, enfeitariam as campas daqueles que haviam partido. Algumas pessoas da aldeia faziam durante o ano jardins amoviveis semeando  crisantemos e outras espécies  que floriam nesta época em vasos, baldes, garrafões de lixivia ou bidões cortados ao meio e, quando se adivinhava a neve, transportavam-nos em "carros de bois" para o alpendre ou outro sitio coberto para, desta forma, protegerem as flores até este dia.
           Alfredo havia regressado á sua aldeia natal havia três meses e, neste periodo de tempo, tinha andado entretido a reconstruír a casa onde nascera e onde tantas recordações o faziam chorar quase diáriamente de saudade dos seus tempos de menino. Emigrara muito novo para a Venezuela país onde havia feito toda a sua vida e voltara, mais de trinta anos depois, a esta sua aldeia com algum dinheiro e muita amargura. Naquele país deixara tudo quanto construíra nestes mais de trinta anos incluíndo a familia que o não quizera acompanhar.Impuzera a si próprio, ao fim de todos estes anos de trabalho, um descanso absoluto e viera vive-lo no local onde havia nascido e onde havia comprado uma pequena e modesta casa que contrastava com o  "grande palácio" que havia construído naquele longinquo país.
            Para este dia havia Alfredo encomendado na Vila o "maior e melhor" arranjo que aquela florista, recentemente formada num curso que frequentara para o efeito em Lisboa, pudesse fazer. Queria, desta forma suplantar a irmã que iria, como era seu costume, enfeitar com as flores que havia tratado no seu quintal. Pouco passava das seis da manhâ e já o grande e potente mercedes rolava em direção á Vila afim de recolher o seu arranjo floral. Tomou um café no "Justino dos Frangos", passou os olhos pelo jornal do dia anterior e seguiu em direção ao cemitério da freguesia onde estavam sepultados seus pais. Ainda não eram oito horas quando ali chegou e, parando mesmo defronte da entrada, abriu a mala e, com a ajuda do Zé Carniceiro e do Joaquim da Ovelha que ali estavam á espera que as respectivas mulheres se "despachassem" com os enfeites, retirou o enorme e bonito arranjo.  Quando chegou junto da campa de seu pais sua irmâ Teresa, tal como havia adivinhado, já ali se encontrava a dispor as suas flores e, aparentemente, não deu importância nenhuma ao arranjo. Limitou-se a cumprimentar  de forma um pouco fria o irmão e, depois de uma rápida olhadela ao arranjo, redistribuíu as suas flores de forma a deixar espaço para as do irmão. e Quando ela  acabou  Alfredo, sentindo que ela lhe não tocaria, colocou as suas flores no epaço vago e ambos ficaram ali... Ela orando e Ele  em silêncio.
             Repentinamente, naquele silêncio de cemitério, uma voz ecoou aos ouvidos de Alfredo: "Que estás aqui a fazer?.. Vai-te embora... Embora... Embora!" Alfredo havia-se virado ao ouvir pronunciar a primeira palavra e olhara bem em seu redor: ninguêm se havia movido e parecia que mais ninguêm tinha ouvido. Mas, o pior de tudo, é que a voz continuava dentro de seu ouvido: "Embora... embora... embora".
    Alfredo ficou, num primeiro instante, como que paralizado mas, muito rápidamente, reagiu e saíu cemitério fora correndo como fujindo de alguêm. Todos os olhares se viraram na sua direção e mais admirados ficaram quando o viram virar á direita e descer correndo a ladeira que separa o cemitério  da estrada nacional quando o seu carro estava  estacionado á esquerda debaixo da velha oliveira. Alfredo continuou a correr até deixar de estar ao alcance dos olhares das pessoas que estavam no cemitério mas continuou a caminhar sem destino. Com o olhar perdido num horizonte que não via Alfredo caminhava sem rumo e, muito repetidamente, virava-se para trás: Não via ninguem e a voz... essa deixara-o em paz.
     Tentava colocar as ideias em ordem: Estivera na Guiné debaixo de fogo inimigo e nunca se havia descontrolado assim. Quando trabalhava nas minas, e quando estava no turno das quatro ou da meia noite, muitas foram as vezes que subira ou descera o monte durante a noite sem qualquer luz e nunca sentira medo... E hoje ambas as coisas haviam acontecido!
             Continuou a caminhar e o destino levou-o até casa do Padre Laranjeira primo direito de sua mãe e talvez o seu único grande amigo. Não precisou bater á porta pois o padre saía de casa para despejar  o "penico" no quintal e, avistando-o, poisou o "penico" e, sentindo-o desorientado, veio ao seu encontro e conduzi-o para a saleta. Alfredo abriu o seu coração e contou ao Padre toda a sua aflição. Este ouviu-o durante muito tempo sem pronunciar uma palavra e, quando sentiu que este tinha acabado, segurou-lhe na mão e falou:
    - Sabes meu filho... eu acompanhei a tua mãe toda a vida desde o seu nascimento até á sua morte. Conheciamo-nos como ninguêm e, depois da morte de teu pai, ficamos ainda mais próximos. Ambos sentiamos a solidão do ocaso da vida: ela com o teu afastamento e com a distância que a separava da tua irmâ e eu com o fim da minha actividade sarcedotal que, apesar de por vezes ingrata, tanto me preenchia e ocupava. Quando se começou a sentir mal eu próprio a levei ao Dr Pratas e, mais tarde, ao hospital. Esteve ali internada quase três meses mas, ao fim das primeira três horas, eu já sabia que ela dali não saíria viva.
    Na primera vez que a visitei tentei dar-lhe animo e dizer-lhe que pouco tempo ali estaria mas ela parecia saber mais do que eu e tinha ideia fixa: A tua visita!. Prometi-lhe e cumpri: Telefonei-te e contei-te o que se passava: Se querias ver tua mãe com vida terias que ser rápido pois, como o Dr Pratas me havia dito, seria uma questão de dias: dez, vinte? Só Deus saberia!
    De cada vez que a visitava tinha que lhe mentir: Estavas a tratar de tudo para vir... Mas... os teus negócios não te deixavam saír tão rápido... Fui-lhe mentindo, e Deus sabe o quanto isso me custava, inventando desculpas para a tua ausência. Os médicos estavam admirados com tanta resistência: Aquilo que eles pensavam ser um sofrimento de dias arrastava-se há quase três meses! Até que um dia, no final de mais uma das minhas visitas diárias, agarrou minha mão e, segurando forte, disse: 
         - Obrigado pela tua amizade que chegou ao ponto de enganares o nosso Deus para aliviares minha dor. Sei que, ao longo destes três meses, me tens mentido acerca do meu Alfredo. Sinto  que pouco se importa com aquela que o fez nascer e que não virá.
          Raramente nos beijamos ao longo de nossas já compridas vidas mas, nesse dia, pediu-me que a beijasse. Fi-lo com a ternura e carinho  que faria com uma irmã se Deus me tivesse dado essa sorte e saí. Quando, como faço todas as noites ao deitar, revi o meu dia senti que aquele beijo tinha sido um beijo de despedida e quando, ás três da manhâ, o telefone tocou senti que tinha chegado sua hora. Do outro lado da linha tive a confirmação: Tinha morrido alguns minutos antes! Tinha aguentado aquele tempo todo á tua espera e, quando sentiu que não virias, desistiu de viver e partiu!
    Por isso, meu filho, aquilo que ouviste hoje não foi, como pensas, a voz de tua mãe mas antes a voz da tua consciência que te não deixa descansar por a não teres vindo visitar. Mas descança meu filho: Lá, no lugar que Deus lhe reservou no seu Reino, ela já te perdoou e só quer que sejas feliz!
     
    June 10

    OS SEGREDOS DO MENINO TRISTE

       E assim, naquele estado bucólico, deixou que sua mente evocasse esses acontecimentos ocorridos há tanto tempo mas, na verdade, sempre presentes em sua mente.
      Revendo agora, áquela distância temporal, aqueles acontecimentos  compreendia, embora sem plenamente o aceitar, algumas atitudes e reações que, naquele tempo, lhe haviam parecido tão crueis, injustas e despropositadas.
    Compreendia que, algumas delas, haviam sido tomadas, não por vontade própria, mas porque era aquilo que, a maioria das pessoas da aldeia, pensava que devia ser feito. É sempre muito fácil julgar causa alheia e, naquela aldeia, todos pareciam ser juízes apesar de, na sua grande maioria, não saberem ler nem escrever. 
      Só qando sentiu a salinidade em seus lábios percebeu que chorava. Chorava de dor... apenas isso. A raiva e o ódio éram sentimentos que pertenciam ao passado e, por isso mesmo, sentia receio. Receio de se ter tornado numa pessoa desprovida de sentimentos e, consequentemente, incapaz de amar.
      Depois do nascimento de Luís, por necessidades emocionais ou económicas, dois homens haviam passado, em segredo, por sua vida e, por nenhum dos dois, tinha sentido qualquer afeição. Começava a pensar ter-se tornado vazia... Um deserto de emoções ou sentimentos.
      Aquela violação e consequente gravidez haviam, tinha consiência disso, destruído todos, ou quase todos, os seus sonhos mas, ainda hoje, lhe doía muito mais o abandono daqueles que a deviam ter protegido e amparado que a malvadez do violador e, escondendo o rosto entre ambas as mãos, chorou convulsivamente.
       De repente estremeceu:Umas mãos pequeninas abraçavam-na e uns lábios, tambem pequeninos, beijavam as partes de seu rosto que suas mãos não cobriam. Devagarinho Luís havia-se aproximado e, vendo a mãe chorar, tratou de a confortar mas, como criança sensivel que era, acabou chorando tambem.
    February 18

    ANTÒNIO ALEIXO

       Faria hoje 109 anos aquele que foi, sem qualquer dúvida, o  maior poeta popular deste país.
       Às 4 horas da manhã do dia 18 de Fevereiro de 1899 nascia na Rua do Principe  Concelho de Vila Real de Santo António  aquele que viria a ser o poeta  António Aleixo. Filho de José Fernandes Aleixo, tecelão, e de Isabel Maria Casimiro, com a ocupação de doméstica, naturais, ele de S. Clemente, Loulé e ela de Vila Real de Santo António.
        A 16 de Novembro de 1949, depois de uma vida atribulada, morre vitima da tuberculose o homem António Aleixo.... O poeta, esse, ainda vive e viverá por muitos anos.
         Pena que muitos dos seus versos, feitos geralmente de improviso e sem qualquer apontamento, se tenham perdido na memória daqueles que os escutaram mas, como seu admirador confesso, aqui deixo a minha homenagem e alguns dos improvisos que   tiveram a sorte de ter como testemunha o Joaquim Magalhães, professor do liceu e   seu "secretário" que  viria a ser peça fundamental para que fosse conhecida uma parte do trabalho do poeta:
     
    Se pedir, peço cantando
    Sou mais atendido assim
    Porque, se pedir chorando,
    Ninguém tem pena de mim.
     
    Quem prende a água que corre
    É por si pròprio enganado;
    O ribeirinho não morre,
    Vai correr por outro lado.
     
    Uma mosca sem valor,
    Pousa co"a mesma alegria
    Na careca de um doutor
    Como em qualquer porcaria.
     
    Sei que pareço um ladrâo
    Mas há muitos que eu conheço,
    Que, não parecendo o que são
    São aquilo que pareço.
     
     
    Até nas quadras que faço
    Aos podres que o mundo tem
    Sinto que sou um pedaço
    Do mesmo podre também.
     
    Vim ao mundo sem saber
    Que vinha a ser o que sou;
    Agora morro sem querer
    E sem saber para onde vou.
     
          ("Este livro que vos deixo..."
          Casa das letras
     
     
      
    February 05

    OS SEGREDOS DO MENINO TRISTE (4)

                  Sentada no banco corrido á esquerda da lareira, Irondina revia mentalmente o que tinha sido a sua vida: As poucas alegrias, as imensas tristezas, as grandes desilusões e as lutas que tivera que travar para ali chegar... Mas, mesmo assim, perguntava a si mesma se valera a pena e, mais importante, se valeria a pena continuar a viver assim. A rebeldia e os azares do passado e o orgulho bem presente, haviam-na conduzido a um beco sem saída: Tinha um filho para criar e, neste dia, nem um pouco de leite para lhe dar. Não conseguira dormir e, levantando-se, acendera a lareira e pusera a "chocolateira" com água ao lume para fazer pelo menos um pouco de chá de cidreira para quando Luís acordasse. Tinha guardado metado do pão com marmelada do dia anterior e, desta forma, darlhe-ia o pequeno almoço. Depois, sem que o dono soubesse,iria  a um campo qualquer apanhar meia dúzia de couves para fazer uma panela de sopa para o almoço. Voltava a pensar no passado e nas pessoa que tinham contribuído para a sua desgraça e só encontrava um nome: Júlio da Quinta! Júlio era o homem mais rico da região apesar dos seus, relativamente, poucos anos de idade. Seus pais eram os donos de quase toda a aldeia e das quintas que a compunham e arrendavam aos lavradores que, desta forma, garantiam o sustento para as suas familias. Trabalhavam todos os dias nos campos e montes das quintas e, na hora da colheita, tinham que comunicar ao feitor para que este viesse buscar as três partes que cabiam aos donos da terra. Assim sendo, por cada quatro sacos de batatas, alqueires de milho, pipas de vinho, litros de azeite ou quilos de fruta, apenas um eram pertença de quem, todos os dias do ano, trabalhava ao sol, á chuva, ao frio, ao vento e, muitas vezes, sem roupas adequadas que os protegessem das intempéries. Quantas foram as vezes que, por causa de fortes chuvas, grandes quedas de granizo, geadas fora de época, ventos ciclónicos ou outras razões da mãe natureza, as colheitas se perdiam na totalidade ou em parte e, apesar de saberem que seria ano de fome para aquela gente, vinham reclamar a sua parte. As lágrimas das mães, a nudez  e a má nutrição das crianças eram, para eles, coisa de somenos importãncia. Não admirava por isso que sua riqueza aumentasse todos os anos á custa do trabalho, sofrimento e, muitas vezes, fome dos outros. Tambem não admirava por isso que, o único filho que tinham, crescesse no meio daquele ambiente e se tornasse, homem feito, ainda pior que os pais. Punha e dispunha das pessoas como entendia e toda a gente o temia. Não só por ser o dono de toda a aldeia mas, essencialmente, por ter ligações politicas e sociais com gente que podia prender, torturar, violar e até matar em nome de um regime escravizante e intolerante que então comandava os destinos deste país. Ao Júlio bastava abrir a boca e acusar de comunista ou revolucionário qualquer pessoa para, no prazo de poucas horas,  essa pessoa ser presa e, em alguns casos, desaparecer por alguns meses, anos ou até.... para sempre!
              No dia em que sismara ter Irondina, tinha conhecido forte resistência mas, habituado as estas coisas, bastou-lhe ameaçar fazer mal á familia para que esta pensasse sériamente e, passado algum tempo, acedesse ao seu  "pedido" para conversarem com "calma.. Não sem que antes o   Padre da  freguesia a aconselhasse a, pelo bem da familia, ceder a ter essa conversa. Por isso mesmo se afastara da Igreja: Que Igreja era aquela que, em vez de socorrer os pobres e oprimidos os aconselhava a, em nome de uma  paz podre e do bem comum, a ceder mesmo cometendo pecados que, a própria igreja condenava? Se um pobre comia carne num dia de jejum ia para o inferno mas, se tivesse dinheiro para pagar a "bula",  ( espécie de imposto que a igreja cobrava para permitir comer carne nos dias proíbidos) então já podia!... Se um pobre roubasse umas couves para matar a fome aos filhos ia preso mas se os ricos roubassem os desgraçados, tinham o apoio do regime e da igreja. A mesma  Igreja  a quem competia zelar e apoiar os pobres, desgraçados, famintos e indefesos trabalhadores ou escravos do século xx colocava-se, estratégicamente, do outro lado da barricada e, com palavras mansas, de lobo com pele de cordeiro, ia auxiliando os poderosos e fortalecendo o regime. 
              No final de tarde  em que, contra sua vontade,  fora levada por Júlio até á casa da eira ( cada quinta tinha uma destas casas que serviam de apoio ás eiras e "canastros" onde se guardavam e secavam os cereais) da quinta de Melães que se situava um pouco longe da aldeia , este havia-lhe prometido que não lhe faria mal algum; Iriam apenas conversar um pouco e logo a traria de volta. Uma vez ali chegados, e como esta se opusesse ás suas reais intençoes, tinha sido agredida e violada várias vezes durante toda a noite. Ao amanhecer deixara-a  nas redondezas da aldeia ameaçando-a que, caso contasse a alguém, faria muito mal á sua familia:
             - Teu pai irá preso ainda hoje e depois vê-se... Dissera-lhe ele antes de a "empurrar" carro fora.
     Chorando  das dores fisicas e psicológicas provocadas por aquela noite de sofrimento,Irondina  cambaleou em direcção a casa  disposta a contar toda a verdade a seus pais mas, para sua surpresa, vira seu pai saír disparado do quinteiro onde se encontrava a "aparelhar" os bois e, com a mesma vara com que os conduzia, dera-lhe ali mesmo uma enorme tareia enquanto lhe chamava todos os nomes que lhe vinham á cabeça e lhe perguntava onde tinha ela passado aquela noite. Acudindo aos seus gritos viera sua mãe que, para a proteger, colocou seu corpo por cima do dela apanhando aínda até á chegada do filho mais velho que tirou a vara das mãos de seu pai, Quando tudo se acalmou sua mãe levara.-a, não para dentro de casa, mas direitinha a casa do Dr Rui onde  foi tratada ás mazelas fisicas provocadas pelo pai. 
              Depois de, com a ajuda da mãe, ter tratado das mazelas fisicas o Dr Rui pediu á mãe para saír e dispôs-se a ouvi-la. Ele percebera imediatamente que outros problemas, bem mais importantes, se levantavam e ela, a muito custo, abriu o coração.
     
     CONTINUA
     
    January 31

    OS SEGREDOS DO MENINO TRISTE (3)

              Depois de ter passado grande parte do dia com a Quina e o Sebastião  Luís chegou a casa era quase noite. Tinha-se alimentado bem  nesse dia e ainda levava no bolso um pão com marmelada cuidadosamente embrulhado. Havia subido a pequena encosta que conduzia á sua humilde casa pelo carreiro que passava ao fontanário e tinha atravessado o ribeiro por cima da pedra de lousa que dava passagem para o campo do Ti Arlindo Pardal. Tinha sido um dia muito bem passado  e ia muito bem disposto... Podemos até dizer: Feliz! Tinha ajudado a Quina e o Sebastião a preparar a terra para semear batatas e estes tinham sido muito carinhosos com ele.
             Mal o avistou, a mãe colocou ambas as mãos nas ancas e ficou com cara de poucos amigos. Nesse momento grande parte da boa disposição e felicidade do menino desapareceu e, de repente, ficou triste: Aquela atitude da mãe significava um grande sermão ou talvez mesmo algo mais.
             -Já vens? Isto é que são horas de chegar a casa?  Berrou ela quando sentiu que o menino estava ao alcance do seu vozeirão.
             O menino parou e ficou na expectativa do que viria a seguir. Já não era a primeira vez que fujia para não apanhar e ali ficou esperando as próximas palavras ou gestos da progenitora. Esta, tirando a mão direita da anca, continuou:
             - Sabes o que merecias agora? Sabes? E, enquanto falava, fazia gestos ameaçadores com a mão.
             O menino  percebeu que não iria acontecer mais nada alem de palavras ásperas e, metendo a mão direita no bolso das calças, começou a avançar  vagarosamente. Quando estava perto de Irondina  tirou a sande de marmelada do bolso e, estendendo a mão na direção da mãe, disse-lhe:
              - Olha o que te trouxe. 
              Irondina recebeu o pequeno embrulho da mão do filho e, percebendo do que se tratava, inquiriu:
              - É para mim?
              - É... Foi a Quina que mandou.
              Irondina percebeu que o filho mentia mas, em vez de o  repreender, colocou-lhe a mão direita no ombro e disse-lhe:
              - Então anda, vamos para dentro que a sopa já deve estar feita... Vamos comer. Sabes fiz sopa de nabiças como tu gostas.
              - Nabiças? Onde foste buscar? Perguntou Luís.
              - Fui rouba-las ao campo do Ti Arlindo.... Mas não digas nada tá bem?
              - Tá bem eu não digo... É segredo não é???
    January 30

    OS SEGREDOS DO MENINO TRISTE (2)

           Depois de uma noite bem dormida Luís acordou cedo. Sentou se na beira da cama de ferro toda pintada de azul e, levantando o lençol de linho, mirou o colchão: Era de pano claro com riscas azuis e vermelhas já um pouco desbotadas e, bem no meio, tinha um buraco por onde entrava a palha que o enchia. Depois de "inspecionar" o colchão  Luís levantou o olhar para a parede em frente e pôde ver um grande quadro  parecido com um que havia visto na capela do lugar e que a mâe lhe havia dito estar ali retratada   a última ceia de Cristo. Na outra parede, aos pés da cama, estava um crucifixo parecido com um que sua mãe tinha no seu quarto e, por baixo dele, um enorme baú de madeira que tinha em cima um catiçal com uma vela. Olhando em volta o menino pôde ver como estava arrumadinho aquele aposento a que chamavam de "saleta" ; Era um espaço que ficava entre a cozinha e a sala e era demasiado largo para ser um corredor e demasiado pequeno e privado para ser um quarto. Como era diferente de sua casa: O soalho estava bem encerado e  os poucos móveis limpos. Uma passadeira, algo gasta mas limpa, unia as portas da cozinha e da sala fazendo supor um corredor.
            Entrou na cozinha e, olhando á volta não viu qualquer mesa. Estranho porque ainda a noite passada havia comido ali naquele sitio numa enorme mesa e agora só ali estava a "masseira"( espécie de banheira em madeira e onde se amassava  e levedava a massa e onde,depois de cozido, se guardava o pão) do pão! Olhando com mais atenção viu, na parede do lado da "saleta", algo que ali não estava na noite anterior: Uma enorme tábua aferrolhada á parede com dois paus presos a ela com três elos de corrente. Olhando mais ao pormenor Luís percebeu que era a mesa onde tinha jantado  na noite anterior só que agora estava levantada. Já tinha visto uma assim em casa do Ti Jaquim do Ferreiro quando uma vez lá fora com a mãe e lhe tinham dado chá porque lhe doía a barriga. Olhando para a lareira o menino viu a "chocolateira"  (cafeteira) do café encostada ao borralho que ainda luzia lume e, mais atrás, um pequeno fervedor com leite ainda "morninho". Miúdo desenrrascado foi buscar um " covilhete" ( malga pequena) e deitou um pouco de café;  de seguida, acabou de encher com o leite de que tanto gostava e que, infelizmente para ele, a mãe raramente comprava porque para isso não tinha dinheiro. Pousando o "covilhete" em cima da " masseira", procurou o açucar que estava num frasco e adoçou bem a seu gosto com aquele açucar amarelo que dava um sabor especial ao leite.
            Desceu as escadas e procurando  no "quinteiro"  viu que estava só. Abriu o portão e preparava-se para descer aos campos quando,vindas do lado da capela, ouviu umas boas rizadas de criança. Curioso, atravessou cautelosamente a estrada, e foi ver o que se passava: Do lado oposto á capela, no final do pequeno adro, ficava a casa do Ti Zé Formiga que, no seu jeito bem disposto, brincava com um dos seus netos atirando-o para cima do monte de palha que ali se encontrava. Pelo aspecto era palha de colchão já um bocado partida... Deviam ter mudado a palha dos colchões nessa manhã e agora avô e neto brincavam ambos muito felizes. Sentando-se no banco de pedra postado á porta do tasco do Virgulino, o menino voltou a sentir aquela angústia e tristeza invadir-lhe o coração. Aqule avô gostava tanto daquele menino e seus avós nunca lhe haviam dirijido a palavra! Sabia quem eram porque sua mãe, bem cedo, lhe tinha ensinado, mas nunca tinha sentido que estes se importassem com ele. Sempre que se cruzavam, coisa que numa aldeia tão pequenina acontecia com frequência, deitavam os olhos ao chão e nem para ele olhavam. E, assistindo ao carinho que o Ti Zé dava ao seu neto, as lágrimas preparavam-se para, teimosamente, correr. Levantando-se rápidamente, abandonou aquele local e, atravessando a estrada, desceu, barroco abaixo, até aos campos na esperança de encontrar a Joaquina ou o Sebastião.
             A meio do percurso avistou seu primo Manel que, com um enorme carrego de erva, subia lentamente barroco acima. Quando se cruzaram o primo pediu:
            -Luís ajudas-me a descer o jigo?
            O menino triste ajudou o seu primo e este perguntou:
            - Então moço? Onde vais?
            - Vou á varzea a ver se vejo a Qina ou o Sebastião. Respondeu o petiz.
            - Eles andam no carregal, na ponta de lá. Vi-os porque fui á erva para a ribeira.
            Respondeu ali a algumas perguntas do seu primo que, pelo que se via, tinha jeito para policia e depois dispunha-se a  continuar o seu caminho quando aquele lhe pediu:
           - Ajudas-me a erguer?
           Agarrando á asa do jigo o menino ajudou o primo que, antes de abalar barroco acima, lhe pediu:
          - Olha... Não digas a ninguêm que falei contigo... Tá bem? É  que o meu pai proibiu-me de falar contigo e, se ele sabe, dá-me uma coça!
          -Já o menino descia novamente barroco abaixo quando, virando-se para trás, lhe respondeu:
          - Tá bem... Eu não digo... Fica a ser o nosso segredo!
          
     
    January 23

    O SEGREDO DO MENINO TRISTE

              Sentado num forte  ranco de choupo,  aquele menino triste limpava com os dedos as lágrimas e o ranho que estas lhe provocavam.Sentia uma amargura  e uma grande dor dentro do seu coraçãozinho de menino triste e deixou que seus sentimentos se soltassem e, desta forma, amenizou sua dor.
    Uma após outra, as lágrimas foram rolando como pinga em beiral de telhado após uma chuvada... Os soluços rápidos,sonoros e violentos foram-se acalmando á medida que o sol ia caíndo no horizonte naquele final de tarde de inverno mas soalheira.
    Do alto  daquela árvore tinha uma vista priviligiada sobre todos os campos em redor e aquela quietude, apenas interrompida pelo saltitar das águas do ribeiro e o cantar dos passaros que, apesar de uma tarde de inverno, saltitavam alegremente de ramo em ramo e  de árvore em árvore, foi-lhe devolvendo a serenidade  e a  calma com que, normalmente, enfrentava as situações.
    Com o fim da tarde vinha, nesta altura do ano, o frio que, muito lentamente, começou a apoderar-se do seu corpo. Os seus pés descalços foram os primeiros a senti-lo e o menino esfregou com ambas as mãos aqueles pés pequeninos mas, por raramente andarem calçados, bem calejados e com uma base tão dura que eram capazes de caminhar por cima de vidros partidos, pedras, e qualquer tipo de piso.A ausência de vento ia tornando suportável o frio mas o menino triste desceu da árvore.
    Caminhou carreiro acima em direção á aldeia e ao passar á casa amarela a Quina do Sebastião ordenhava a vaca arouquesa e, olhando de lado para o menino, disse-lhe:
    -Olá Luís... Queres um "cadinho" de leite?
    O olhar triste do menino fixou os olhos da mulher que, experimentada  da vida, viu imediatamente que, mais uma vez, algo de anormal se estava a passar.
    - Que foi Luís? Tás  doente?
    Enquanto falava levantara-se,  dirigira-se para o menino e estava já a acariciar-lhe o cabelo quando lhe fez a segunda pergunta. O menino, sentindo o carinho e a ternura da mulher voltava a chorar e a soluçar.
    Acariciando o menino, Joaquina mantinha-se em silêncio e nem o facto de sentir suas lágrimas molharem a sua saia a fez mudar de atitude. Sabia que se passava algo e, bem no seu intimo, imaginava o que era mas, infelizmente para aquele menino triste, nada podia fazer a não ser acarinha-lo e compreende-lo. E, sentindo as lágrimas e os soluços do petiz, os olhos de Joaquina foram-se cerrando lentamente e as lágrimas, teimosamente, começaram a rolar. E quanto mais ela se esforçava para as conter, mais elas se esforçavam para romper a barreira dos olhos cerrados e começaram a rolar de forma abundante. Pela mente de Joaquina passava agora a revolta: Tanto pedira a Deus um filho e não tivera essa sorte e outras pessoas tinham-nos e maltratavam a sorte que Deus lhes deu! E quanto mais pensamentos afloravam sua mente mais lágrimas corriam rosto abaixo e o menino, sentindo a mulher chorar, já não tentava conter seus soluços e limpava o ranho á saia. Os dois assim,unidos pela dor, fariam chorar as pedras da calçada. 
    Do alto da varanda  Sebastião assistia á  cena e, tambem ele, sentiu pena daquele menino que, apesar de tão pequeno, tanto sofria e, sem dizer nada , desceu os oito degraus que o separavam do curral e foi acabar de ordenhar a "torina".
          Já Joaquina subia as escadas abraçada a Luís quando Sebastião acabou de ordenhar a vaca e saía do curral com o canado do leite na mão dizendo:
    - Trata do moço que hoje vou eu ao posto.
    Joaquina, enquanto agradecia mentalmente a Deus o marido que lhe dera, disse-lhe:
    - Podias pedir ao Toninho do posto que, ao passar na casa da Irondina da Légua ou quando a visse, lhe dissese que o menino está aqui...
    - Tá bem... Eu digo-lhe. Respondeu o marido enquanto saía com o canado na mão e passo aligeirado.
    Enquanto subia as escadas pensava na  Irondina e na sua sorte: Fora sua companheira de escola e catequese  e gostava dela porque era comunicativa e entusiasta mas, com o passar do tempo, foi mudando a sua  personalidade e tornou-se uma adolescente triste e taciturna. Mais tarde uma gravidez nunca explicada, uma obstinação em manter absoluto segredo sobre a identidade do pai da criança, a expulsão de casa, um parto dificil e uma depressão pós parto da qual nunca se recompôs deram cabo da vida daquela sua ex colega de escola e catequese. Não raras vezes abandonava aquela criança dois ou três dias seguidos, batia-lhe com demasiada frequência e, a maior parte das vezes, sem qualquer razão visivel. Ás vezes dava a impressão que se vingava no filho de todo o mal que lhe faziam ou haviam feito.
    Já na cozinha partiu um bocado da  marmelada que sempre fazia e, juntando-lhe um bom bocado de pão, estendeu-a na direção do petiz que não foi de modas e, alem de aceitar de imediato, começou imediatamente a comer com tal voracidade que levou a que Joaquina ralhasse:
    - Come devagar rapaz! Parece que não comes há uma semana! Há aqui mais e tens acolá uma panela de caldo! E, baixando o tom de voz, perguntou:
    - A tua mãe está em casa?
    Com a boca bem atafulhada de pão e marmelada, Luís demorou um pouco mas respondeu:
    - Não  Senhora. "Onte" á noite, quando me estava a deitar, veio lá um homem falar "co"ela... Quando "cordei " hoje de manhã já não estava em casa.
    - E comer? Tinhas?
    - Tinha um "cadito" de caldo de "onte" á noite. Assim meia malga! E apontava para o meio de uma malga em cima da mesa.
    - Aqueceste?
    - Não.. comi frio ao "mei dia".
    - E então não comeste mais nada desde ontem?
    - Não senhora.
    Depois de comer a sopa Luís perguntou:
    - Posso ver televisão?
    - Podes mas não estragues nada que eu vou dar de comer ao gado.
    Era já noite escura quando, vindos do caminho se ouviram dois berros:
    - Ò Quina! Ò Quina!
    Assomando á entrada da varanda Joaquina respondeu:
    - Que é?
    - Sou eu... a Irondina! O Toninho do posto disse-me que o meu Luís estava aqui!
    Joaquina abriu-lhe o portão e, enquanto ambas subiam as escadas,   disse-lhe que o menino já estava a dormir.
    Entraram ambas no quarto e, verificando que Luís dormia, Irondina sugeriu que ali ficasse até de manhã. Joaquina concordou e, depois de lhe matar a fome, acompanhou-a até ao portão. De seguida foi ao quarto onde Luís dormia e, sem olhar para ele,  disse meio a brincar:
    - Que seja a última vez que enganas a tua mãe! Eu bem vi que não dormias... mas ficaste quietinho para ficar aqui... não foi?
    Como Luís continuasse mudo e quedo Joaquina insistiu:
    - Confessa lá: Gostas mais de ficar aqui do que em tua casa .. não é?
    Nesta altura Luís dando uma risada respondeu:
    - Oh... Assim não vale!! Esse era o meu segredo!!
     
    January 21

    CARTA AO PAI NATAL

    PAI NATAL:
    Eu sou o Pedro  vivo na rua das ervilhas nº17 e tenho um irmão que se chama João e está internado no hospital há quase três meses. Tu deves conhecer-nos porque todos os anos te escrevemos a pedir uma prenda.
    Este ano, como é costume, não me deste a prenda que pedi. Já o ano passado te tinha pedido uma playstation 2 e tu, como dás o que queres, deste-me uma bola de futebol e uns chocolatitos! Não fiquei zangado contigo porque bem sei que, com tantos meninos a pedir, é impossivel atender a todos... mas este ano o meu pedido foi muito especial: pedi-te que curasses o meu maninho e tu, talvez lembrando-te do pedido do ano passado, deste-me a playstation.
    Por isso mesmo estou a escrever-te para te pedir, pela primeira vez, que troques a minha prenda. Ainda não a estreei e nem sequer a tirei da caixa para que possas, se for o caso, da-la a outro menino... Eu quero mesmo é que o meu Joaozinho fique curado!
    Eu sei, Pai Natal, que já fui mau para o meu maninho, sei que já lhe bati por ele ter brincado com os meus brinquedos, que já tive muitos ciúmes dos carinhos que lhe faziam meus pais, já lhe estraguei propositadamente os seus brinquedos mas agora... tenho muitas saudades dele e queria muito que ele ficasse bom.
    Há três meses que os meus pais vão diariamente ao hospital, há três meses que o não vejo porque não posso visita-lo! E eu tanto queria, Pai Natal, pedir-lhe desculpa por alguma coisa de mal que tenha feito e que tenha, de qualquer forma, contribuído para a sua doença!
    Há três meses que o meu maninho não dorme no nosso quarto. Eu bem sei, Pai Natal, que, noutros tempos, fui contra a sua vinda para o meu quarto porque me parecia que seria um estorvo e um impedimento á minha privacidade... mas agora  o quarto parece-me tão vazio e eu tenho tantas saudades!!
    Peço-te por tudo, Pai Natal, dá-me a prenda que te peço e podes, se assim o quizeres, deixar de me dar mais prendas. A cura do meu maninho é, neste momento, a coisa mais importante do mundo para mim! Perdi a vontade de comer, de brincar, de jogar á bola, de ir á escola e até aqueles doces de feijão de que tanto gostava, estão agora no frasco semanas seguidas sem que lhes toque. Sem o meu Joaozinho a minha vida não é igual!
    Se não puderes cura-lo, Pai Natal, pelo menos dá-me a mim a mesma doença para que possa tambem ser internado á sua beira e possa com ele conviver e brincar, ajudando desta forma a que seja mais leve seu penar!!
    NÂO TE ESQUEÇAS DO  MEUS PEDIDO  PAI NATAL!
     
    January 20

    LATA!!

          O conhecido assaltante de bancos espanhol, Jaime Jimenez  Arbe, mais conhecido como" El Solitário", e detido o ano passado ,quando tentava assaltar uma depedência bancária na Figueira da Foz, tem denunciado, de forma sistemática, violações dos direitos humanos na cadeia de Monsanto onde, desde então, tem estado detido.
    Entre aquilo que considera violações está o facto de só  poder "passear" no exterior durante uma hora. Não será muito tempo... mas é concerteza muito mais do que aquele que, o referido assaltante, concedeu aos dois elementos da  guardia civil que, alegadamente, assassinou , crimes pelos quais começou, esta semana, a ser julgado na cidade espanhola de Pamplona.
     
     
          Por outro lado, o conhecido assaltante, considera-se inocente na  acusação de tentativa de assalto pela qual vai ser julgado em Portugal. Apesar de ter sido detido quando se encontrava disfarçado, conduzindo um carro com matricula falsa e com uma pasta de executivo na qual transportava duas pistolas, uma metralhadora calibre 45 mm,  gás paralisante e um saco para o  produto do roubo!!!  Não sei se  o dia em que foi detido era de caça mas, se assim for, pode sempre alegar que... ia caçar coelhos!!
     
     
    January 17

    RESPOSTA

    QUERIDA MÂE:
     
    Neste dia chuvoso de inverno recebi tua carta e, ao le-la, meu coração disparou, a emoção apoderou-se de mim e, pela primeira vez em muitos anos, chorei convulsivamente como uma criança! Não são,infelizmente para mim, raras as lágrimas em meu rosto mas, que me lembre, nunca chorei desta forma!  As lembranças a que te referes na tua carta despertaram em mim outras lembranças há muitos anos adormecidas: Os avós e tu a trabalharem os campos, a cuidarem dos animais, a fazerem as sementeiras que, de dia para dia, eu vi crescer! A ordenharem as três vacas e tu a levares o leite ao posto percorrendo quilómetros todos os dias com um canado á cabeça e,não raras vezes, com outro na mão. Sacrificaste-te tanto e eu dou-te tão pouco!
    Desculpa não te escrever á tanto tempo mas a minha vida, á semelhança da tua, parece teimar em não me deixar encontrar o caminho para a felicidade. Eu e a Naty separamo-nos há mais de sete meses após meses de turbulência conjugal com agressões verbais a toda a hora.
    O destino que me negou a alegria de conhecer um pai, me levou cedo o avô, me fez nascer numa terra onde nada existe para que  possamos desenvolver uma actividade que nos permita viver com algum conforto e dignidade, que fez de mim o coitadinho e rejeitado da escola e da aldeia por ser filho de mãe solteira, continua a lutar arduamente para que não possa ser feliz!
    Estes acontecimentos dos últimos meses, minha querida mãe,  fizeram com que se reacendesse em mim a chama da revolta há algum tempo extinta: porquê eu?... Porque tem que me acontecer tudo de mau?... Será que Deus existe?... Se existe, minha mãe, deve estar a dormir há tantos anos que nem se apercebe das injustiças que acontecem, diariamente, neste nosso mundo triste e desigual!
    Este Natal foi, sem dúvida, o pior de toda uma vida de sofrimento e incompreensão! Pela primeira vez na minha vida passei a noite de Natal completamente só e embriagado... Talvez não mereça melhor do que esta solidão, este desprezo a que sou votado diáriamente, esta dor que se reinstalou dentro de mim, esta amargura que só se cala á força do alcool e este sentimento de que não pertenço a lado algum!... Porquê?...
    A ilusão fez-me partir em busca de uma vida melhor e, passados quase vinte anos... Quem sou eu?... Onde pertenço?... Olhando para tráz só vejo sofrimento e dor e, quando tento levantar a cabeça e olhar para a  frente, o nevoeiro é tão denso que não consigo enxergar um palmo á frente do nariz.
    Para agravar tudo isto, minha mãe, fui despedido há três meses. Sei que, depois da separação, não fui um bom funcionário... As faltas ao trabalho, a baixa produção, um comportamento áspero para com os colegas e superiores e o alcool, depressa arruinaram uma imagem que levei anos a construír! Agora vou andando por aí na esperança de um milagre. Sim, porque só um milagre, poderá salvar este teu filho. As forças para lutar contra um destino atroz são cada vez menores e sinto que terminarei meus dias debaixo de uma qualquer ponte longe do meu País e dos meus.
    Se um dia isso acontecer, não quero ver-te chorar e  não sofras... antes sorri porque, nessa altura, e, pela primeira vez, estarei em paz!
    Que Deus, que durante a vida me esqueceu, tenha, nessa altura, pena daquele que tanto penou!
    Um beijo grande para a Avó e não lhe contes o que escrevi. E para ti, minha mãe, de quem todos os dias me lembro, o meu obrigado pela tua coragem que, face á minha fraqueza, aprendi a admirar. Um beijo deste teu filho perdido e... até um dia no Ceu.
     
     
     
    January 13

    CARTA DE UMA MÂE SOLTEIRA

               MEU FILHO:
    Espero que a presente te encontre de saúde que, nós por cá, vamos bem. Até a tua avó, que tem quase oitenta, vai caminhando por aí e ainda esta semana foi ter comigo á junqueira para me ajudar a erguer um carrego de erva.
    No mês passado, talvez por ser o do Natal, pensei muito em ti  e numa possivel carta tua mas, ou tu não me escreveste ou o carteiro não anda a fazer bem o seu trabalho. Bem sei que tens por aí a tua vida e a tua familia mas, pelo menos nestas datas, podias lembrar-te um bocadinho das tua mãe e avó!  Há mais de meio ano que não tenho noticias tuas e, nem por isso, deixo de me lembrar de ti e do passado.
    Sabes, a aldeia é pequena e agora vive aqui muito pouca gente: uns morreram outros emigraram alguns foram casar noutras terras e por lá ficaram. Vou e venho dos campos, a grande maioria das vezes, sem encontrar alguêm com quem me distraír a conversar um bocado; Dantes ia á erva para a varzea, para a junqueira, para a carvalheira, para a ribeira ou para o pomar e podia fazer um grande carrego que sempre encontrava alguêm por perto para me ajudar a erguer... era só dar um berro e logo vinha alguêm ajudar! Agora tudo isso acabou meu filho... ficamos aqui meia dúzia de velhos dos quais, a grande maioria, pouco ou nada faz... os campos estão por aí a monte e os pinhais a arder de tão grande que é o mato! Dantes tinhamos que dar dois terços da colheita aos patrões para fazermos as suas terras; mais tarde, já no teu tempo, passou a ser "a meias" e agora alguns ainda pagavam para fazermos as suas propriedades.
    Mas, como isto é pequeno e solitário, viro-me agora para o passado e, em cada campo, cada monte, cada casa, cada caminho ou barroco me lembro de uma história, uma passagem,uma conversa, uma discussão, uma pancadaria, um convivio, uma desfolhada com história, uma matança do porco mais marcante, um acidente....
    Lembras-te daquela vez que foste comigo á erva para a várzea e, com o pretexto de ir beber água ao ribeiro, te foste pôr a dormir naquela "moreia" de canas? Adormeceste e, quando precisei de ti, fartei-me de chamar por ti e tu a dormir e a ressonar! Que susto Deus meu! È que uns dias antes tinham andado por ali uns ciganos que, diziam alguns, roubavam crianças para depois venderem.
    Ou daquela em que sismaste em atravessar o barroco em direção ao pomar caminhando por dentro da caneira da água de rega? Quando dei por ela dei-te um berro tão grande que te assustaste e caíste no barroco! Graças a Deus não te aleijaste.
    E daquela vez que a criada do Dr Roberto foi á escola pedir aos meninos que quizessem carregar os paralelos  que eram para lhe arranjar a entrada prometendo que, no final, podiam ir para o quintal e comer as tangerinas que quizessem e tu, levantando-te, lhe disseste que os carregasse ela porque se quizesses comias as tangerinas todas sem ter que lhe pedir? O Dr Roberto suspeitou logo que eras tu quem lhe andava a comer as tangerinas e chamou-me lá a casa de imediato e, usando da sua qualidade de dono da propriedade que faziamos, me exigiu um castigo exemplar e a promessa de que não irias lá mais. Quando te quiz bater puseste-te a jeito e disseste: " Queres bater? Bate! Se eu e os meus amigos não as comermos elas apodrecem e só servem para estrume!" O que era bem verdade. O Dr Roberto não era mã pessoa mas era muito soberbo: nem comia nem deixava comer!
    Na apanha da azeitona, no pomar, lembrei-me do tempo em que ali dormias numa giga enquanto varavamos as oliveiras.Quando venho á janela da cozinha e, olhando para o quintal, vejo aquela tangerineira onde criavam os melros e tu não deixavas ninguêm tocar nos ninhos. Era a mesma tangerineira onde, ás vezes, te escondias de teu avô!... Agora, por falar nele, tenho tantas saudades! Sei que era um Homem rude e de poucas falas mas, o tempo e os acontecimentos de toda uma vida, levaram-me a admira-lo! Infelizmente isso aconteceu numa altura em que, apesar de eu o não saber, já lhe não restava muito tempo de vida.
    Quando teu pai me abandonou depois de descobrir que estava grávida, fujindo ao pacto que haviamos sigilosamente  feito, virei a chacota de toda a aldeia e fui mal falada em todos os lavadouros dos arredores; Qualquer pai desta aldeia naquele tempo teria dado uma coça á filha e tela-ia posto fora de casa mas, acredita meu filho, nunca lhe ouvi uma critica! Sofreu, como sofreria qualquer pai no seu lugar, e,durante muito tempo, foram poucas as palavras que lhe ouvi mas nenhuma foi de critica ou acusação! Mais tarde vim a saber que, embora pouco falasse comigo, perguntava muitas vezes á tua avó como é que eu estava. Conta a tua Avó que á noite, no aconchego do colchão de palha e dos lençois de linho, lhe dizia muitas vezes: " olha pela cachopa  e não ralhes com ela porque já  tem sofrimento que chegue!" Grande homem aquele teu Avô que, apesar de analfabeto, foi capaz de entender, sem ninguêm lhe explicar, a dor de ser abandonada por aquele a quem me entreguei confiando no seu amor! Foi por ti, e só por ti, que aguentei tamanho desgosto e foste sempre, a partir daquele dia, a única razão da minha existência! Ainda hoje, passo horas, manhãs ou tardes inteiras a pensar em ti e poucas são as vezes que me lembro do teu pai! Sempre me recusei a imaginar a minha vida sem a sua existência porque, apesar de tudo, dele... ficaste tu!
    Muitas foram as vezes que me apeteceu partir e saír deste buraco mas tu foste sempre a ancora que aqui me prendeu! Vivi uma vida vazia de significado onde não tive muitos motivos para sorrir mas a tua existência sempre deu um novo significado á tua vida!
    Se um dia a tua Avó se for não sei o que farei e, pergunto muitas vezes a mim mesmo, se terei coragem para continuar... mas, como  ainda não perdi a esperança de rever meu filho e conhecer meus netos, vou agarrar-me com todas as já muito poucas forças a essa esperança para continuar.
    Olha por ti meu filho e não te esqueças do caminho para a aldeia perdida no meio das montanhas onde, um dia, abriste teus olhinhos pequeninos pela primeira vez! Aqui ainda moram aquela que te deu á luz e aquela que foi a primeira a segurar-te ao colo e que, apesar da vergonha porque passou, viveu esse momento com tanta intensidade que, pela única vez na vida, bebeu um pouco de vinho "fino".
    ADEUS MEU FILHO E ATÈ À VOLTA DO CORREIO!